Crônica do Cotidiano

Crônica do Cotidiano 1

“Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.”

Em 12 de junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento, de 19 anos, fez 10 reféns em um ônibus da linha 174, no Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. Após mais de quatro horas de negociação, disparos interrompem a vida do sequestrador e da refém que morrera duas vezes: uma dentro e outra fora do ônibus. Ambos morreram de fome para o bem comum dos desalmados que governam a falta de comida que nunca os atinge.

“O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.”, Fernando Sabino fuzila o diagnóstico dos que passam sem notar a própria fome.

“Eu não quero machucar ou lavar os pertences de vocês, só quero entrar para a história. Ao fim do dia vocês terão muita coisa para contar.”, disse William Augusto da Silva, de 20 anos, o sequestrador da Ponte Rio-Niteroi, morto de fome às 9h04 de hoje, após ser baleado por um atirador de elite do Batalhão de Operações Especiais, mais faminto ainda.

“Eu celebrei a vida”, explica o governador do Rio Wilson Witzel para justificar o gesto eufórico de alegria, como quem marca um gol de placa, pela conta do abate de mais um cadáver, gerado por um esfomeamento coletivo. Basta saber de quê.

“As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.”

Fernando Sabino. A mulher do vizinho. 17 ed. Rio de Janeiro: Record, 1997.

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