23 de julho de 2026


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Prefeitura Municipal de Ilhéus
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Dizem que recusou uma vida de regalias para viver na simplicidade, encontrando na própria solitude o conforto que muitos jamais encontrariam em palácios. Preferiu a reclusão voluntária, como os antigos eremitas, fazendo do silêncio a sua companhia, da liberdade o seu patrimônio e da contemplação uma filosofia de vida. Talvez por isso ninguém jamais tenha conseguido explicar quem realmente foi Seu Luís. Em uma cidade onde realidade e ficção caminham de mãos dadas desde Jorge Amado, ele deixou de ser apenas um homem para transformar-se em lenda.

Toda cidade possui ruas, praças, monumentos e prédios históricos. Mas apenas algumas são capazes de transformar pessoas comuns em personagens eternos. Ilhéus sempre foi assim. Antes mesmo de Jorge Amado imortalizar seus coronéis, prostitutas, pescadores e sonhadores, a cidade já colecionava figuras que pareciam ter escapado das páginas de um romance. Homens e mulheres que nunca ocuparam cargos públicos, jamais receberam homenagens oficiais, mas conquistaram aquilo que poucos alcançam: permanecer vivos na memória de um povo.

Entre todos eles, talvez nenhum tenha sido tão misterioso quanto aquele homem que caminhava lentamente pelas ruas do centro com um cajado nas mãos, longas madeixas lembrando um rastafári, barba branca dividida ao meio, óculos cuidadosamente remendados com fita adesiva e vestes que recordavam os antigos franciscanos. Seu semblante misturava serenidade e distância, como se enxergasse um mundo invisível aos olhos da maioria. Chamava-se Luís. Mas para Ilhéus ele nunca precisou de sobrenome. Bastava dizer: “Lá vai o Profeta.”

Quem estudou nas imediações do Ginásio de Esportes Herval Soledade entre as décadas de 1980, 1990 e o início dos anos 2000 certamente cruzou com ele inúmeras vezes. Eu fui um desses estudantes. Passei pela Escola Municipal Heitor Dias, pela Escola Perpétua Marques, pela Cruzada do Bem e pelo Instituto Municipal de Ensino. Em todas essas escolas havia uma certeza silenciosa: em algum momento do dia encontraríamos aquela figura caminhando calmamente pelas ruas ou recolhida em seu pequeno abrigo.

Seu lar não era exatamente um barraco.

Era um pequeno refúgio improvisado, discretamente escondido sob a escadaria lateral do Ginásio Herval Soledade. Tão discreto que muitos atravessavam diariamente aquele espaço sem imaginar que ali vivia alguém. Talvez justamente por isso tenha permanecido tantos anos naquele lugar. Nunca incomodava ninguém. Não pedia esmolas. Não fazia algazarra. Parecia existir um acordo invisível entre a cidade e aquele homem que havia decidido viver às margens do mundo sem jamais abandonar Ilhéus.

As crianças, naturalmente inquietas, nem sempre compreendiam aquele silêncio. Corriam atrás dele, gritavam “Beato Salu!”, repetindo uma expressão popular da época, jogavam pequenas pedras e faziam travessuras próprias da infância. Ele raramente respondia com irritação. Na maioria das vezes limitava-se a seguir seu caminho, protegido por uma serenidade que parecia impossível de ser abalada. Quando respondia, quase sempre era através de frases que mais pareciam provérbios.

Eram justamente essas palavras que alimentavam o mito.

Contavam que falava iorubá com impressionante naturalidade. Outros garantiam que dominava filosofia e teologia como poucos professores universitários. Havia quem jurasse que conhecia profundamente as Escrituras Sagradas e discutia religião com sacerdotes, pastores e estudiosos. Ninguém sabia exatamente onde aprendera tanto. Também ninguém sabia ao certo se tudo aquilo era verdade. Mas, em Ilhéus, algumas histórias jamais precisaram de provas para continuarem vivas.

O ilheense Anacleto Barreto, que conviveu com Seu Luís durante muitos anos, preserva algumas lembranças preciosas daquele convívio. Quando alguém lhe desejava bom dia, respondia com humildade desconcertante:

“Deus lhe responde por mim, porque eu sou pequeno.”

Ao ver Anacleto aproximando-se, brincava sorrindo:

“Anacleto, Anacleto… não bula comigo que eu tô quieto.”

Quando desejava criticar alguém que exercia mal determinada função, improvisava:

“Se não dá pro fubá, desocupa o lugar. Sai do carreiro e deixa pra quem pode passar.”

Mas o Profeta também revelava um humor inesperado. Certa vez, durante uma competição esportiva no ginásio, vendo um grupo de moças atravessar a praça, deixou escapar uma rima que até hoje provoca sorrisos em quem a escutou:

“Quanta roça de mandioca… quanta fome de farinha… tanta menina bonita e eu não sei qual é a minha.”

Era impossível enquadrá-lo em qualquer definição.

Era mendigo?

Filósofo?

Religioso?

Poeta?

Louco?

Sábio?

Talvez fosse um pouco de tudo.

Talvez fosse apenas um homem que decidiu viver segundo regras que somente ele compreendia.

O saudoso médico Dr. José Lourenço parecia enxergar justamente isso. Atendia Seu Luís sempre que necessário e, discretamente, providenciava roupas confeccionadas especialmente no mesmo estilo das vestes que ele costumava usar. Não tentava transformá-lo em outra pessoa. Apenas respeitava sua forma de existir.

E foi justamente esse respeito que fez nascer ainda mais histórias.

Diziam que parentes ricos o visitavam frequentemente tentando convencê-lo a abandonar aquela vida. Outros afirmavam que ele era herdeiro de uma grande fortuna. Havia ainda quem garantisse que possuía um filho policial militar em Itabuna. Anos depois surgiria outra versão: teria finalmente recebido uma vultosa herança, casado e ido viver tranquilamente em uma fazenda na região de Vitória da Conquista.

Verdade?

Lenda?

Memória?

Em Ilhéus essas fronteiras sempre foram delicadas.

Talvez por isso o escritor, dramaturgo e imortal da Academia de Letras de Ilhéus, Pawlo Cidade, tenha encontrado justamente em Seu Luís a inspiração para um dos personagens mais emblemáticos de seu romance O Povoado das 11 Mil Virgens, onde um misterioso profeta surge trazendo notícias que alteram o destino de toda uma comunidade. A literatura apenas fez aquilo que a cidade já havia feito muito antes: transformou um homem real em personagem.

E um personagem em patrimônio afetivo.

Depois de tantos anos convivendo silenciosamente com a cidade, Seu Luís desapareceu da mesma forma como chegou.

Sem despedidas.

Sem explicações.

Sem deixar rastros.

Hoje, onde existia aquele pequeno abrigo escondido sob a escadaria do Ginásio Herval Soledade, funciona a sede da Guarda Municipal de Ilhéus. O barraco desapareceu. A escadaria permanece. O ginásio continua recebendo atletas, estudantes e moradores. Mas quem viveu aquela época ainda consegue enxergar, através da memória, um homem caminhando lentamente com seu cajado, seus óculos remendados e um olhar perdido em horizontes que talvez apenas ele fosse capaz de contemplar.

Talvez Seu Luís nunca tenha desejado ser lembrado. Talvez buscasse apenas a paz que o mundo moderno insiste em negar. Mas cidades possuem um curioso hábito: eternizam justamente aqueles que nunca procuraram fama. Restaram poucas fotografias, alguns relatos, incontáveis histórias e um mistério que talvez jamais seja solucionado. Afinal, o Profeta existiu. Disso ninguém duvida. O que permanece envolto em névoa é tudo aquilo que a cidade acrescentou à sua história ao longo dos anos.

E talvez seja exatamente isso que o torne inesquecível.

Porque algumas pessoas passam pela vida.

Outras passam a fazer parte da alma de uma cidade.

Seu Luís, o Profeta, pertence definitivamente à segunda categoria.

Crédito especial: Esta publicação foi produzida com a colaboração do extraordinário acervo da página Memória Visual de Ilhéus, idealizada e mantida por Carlos Mascarenhas, cujo trabalho de preservação da história e da memória afetiva do povo ilheense merece reconhecimento e gratidão.

OLHAR PÚBLICO

“Onde a informação encontra a reflexão.”

Thiago Viana Borges
Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.

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