Crônica

ROTINAS

ROTINAS 1

Os seres humanos são as criaturas mais adaptáveis do mundo. Sim, nós nos acostumamos a tudo. Reclamamos no início, mas acabamos nos adaptando para não deixar de viver por algo que não podemos mudar. Mas o pior é que também nos acostumamos a não mudar, como se por isso ganhássemos alguns anos de vida a mais. Vida? O que é a vida?

Nos acostumamos a não sair de casa porque nos acostumamos a pensar que haverá um dia seguinte e, assim, outras oportunidades para não sair de casa surgirão.

Nos acostumamos a fumar, a beber, a comer mal e a dormir pior ainda, dedicados aos problemas que odiamos, mas alimentamos.

Nos acostumamos a não fazer sexo no casamento e a exigir fidelidade da outra parte, porque o peso do tempo nos adaptou a pensar que a outra pessoa da relação se tornou assexuada.

Nos acostumamos a não ver o sol porque as contas se acumularam, ou porque os olhos estão muito ocupados na agonia do lucro para garantir um futuro que nos acostumamos a planejar, simplesmente pelo costume de acumular a incerteza no amanhã, na mesma proporção em que desperdiçamos o certeza no hoje.

Nos acostumamos a não dizer: “eu te amo” porque o casamento se tornou como um filme longa metragem em reprise eterna: à beira do fim basta apelar aos reinícios.  Continue lendo

Crônica do Cotidiano

Crônica do Cotidiano 2

“Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.”

Em 12 de junho de 2000, Sandro Barbosa do Nascimento, de 19 anos, fez 10 reféns em um ônibus da linha 174, no Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro. Após mais de quatro horas de negociação, disparos interrompem a vida do sequestrador e da refém que morrera duas vezes: uma dentro e outra fora do ônibus. Ambos morreram de fome para o bem comum dos desalmados que governam a falta de comida que nunca os atinge.

“O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.”, Fernando Sabino fuzila o diagnóstico dos que passam sem notar a própria fome.

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