Foto: Paula Fróes/GOVBA

O coronavírus é um medo diário para grande parte da população. A doença, porém, está na rotina de milhares de profissionais da saúde, que encaram o vírus e todas as suas consequências desde os primeiros dias de infecção de pacientes em Salvador. Para a enfermeira Caroline Oliveira, esse um ano de combate à doença mudou muitos rumos da sua vida e como ela exerce o seu ofício.

“Eu posso dizer com muita tranquilidade que sempre pensei muito no ser humano. Eu parto do princípio que aquele paciente poderia ser eu, minha mãe, meu pai. Quando o paciente diz que está com medo, eu paro tudo que eu estou fazendo, seguro a mão dele e converso. Digo que ele não está só. A covid é uma doença que mata a pessoa sozinha. Ela não tem contato com ninguém que ela ama, confia. Comecei a fazer chamada de vídeo na UTI, pois acredito que isso muda o prognóstico do paciente”, conta, em entrevista ao Política Livre.

Em 10 anos de profissão, Caroline diz que o Sars-Cov-2 faz com que ela pense em mudar de profissão. “Eu tenho cada vez mais pensado em sair. Eu já tinha pensado antes, mas estou abrindo mão da vocação, do trabalho. Não está valendo à pena. Está me adoecendo. Eu não consigo me ver na profissão daqui há cinco anos. Espero que algo mude, mas tenho buscado outra coisa. Não consigo falar de outra coisa, só de gente doente”, queixa-se.

Ela mesmo quase foi vítima da doença e lembra do terror que foi vencer o patógeno e voltar para a UTI, mas como trabalhadora. “Eu tive Covid e tive que voltar a trabalhar, foi também impactante. Tive falta de ar, mas como estávamos com pacientes nos hospitais, eu não queria ir. O paciente covid sofre só, acompanhado dos profissionais, é claro, mas ele morre só. Não pode ver sua família, ninguém que você convive. Meu medo era ser intubada, claro que a pessoa tem chance de sobreviver, mas eu fiquei com medo. Você tem medo de ficar sendo invadida por uma série de remédios, sendo exposta. Foi muito doloroso. A Covid muda nosso psicológico”, narra.

Também enfermeira, Carolina Minaim sofre até hoje com as sequelas da doença que contraiu enquanto trabalhava. “Tenho três meses sem sentir meu paladar e olfato. Tenho gastado dinheiro ‘a rodo’ para tentar voltar ao normal”, conta.

Para ela, as mortes causadas pela Covid não podem ser normalizadas nem mesmo por profissionais de saúde – mais acostumados com sentimentos como dor, esperança, morte. “O fato de ver gente na rua me deixa enlouquecida. Se tivesse em casa, muita coisa seria diferente. Para mim, não é o ciclo normal da vida a pessoa morrer da forma como a Covid mata. São mortes que poderiam ser evitadas”, aponta.

Carolina não consegue deixar as cenas que vê na UTI na porta do hospital. Ao chegar em casa, ainda pensa nos pacientes e na situação que vive no plantão. “Antes da covid era mais fácil esquecer os problemas do plantão. Agora eu preciso dividir com alguém, eu lembro das pessoas, não tá dando para esquecer. Me traz muito sofrimento, mas a fé em Deus e a certeza de que isso vai acabar me trazem esperança”.

Nos 30 anos que tem como técnico de enfermagem, Eduardo Bispo diz que nunca esteve tão cansado. “Na nossa área, do técnico, ele não cansa somente o físico, cansa mais o psicológico. É uma tarefa muito árdua, cansativa, psicologicamente mais cansativo ainda. Você fica mais responsável pela paciente do que todo mundo”, diz.

Bispo, quando soube do vírus na Ásia, diz que partilhou com amigos e família o temor da chegada da doença ao Brasil. “Eu comentei com colegas e em casa que se chegasse no Brasil iria ser uma catástrofe. As pessoas não levam a sério. O brasileiro trata a saúde, não previne. Está aí para todo mundo ver”, lamenta.

Informações do Política Livre

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