“A educação é o que eu mais valorizo, definitivamente”, diz pcd estudante de computação

Amanhã é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. De acordo com o IBGE, 6,2% da população brasileira tem algum tipo de deficiência e a mais recorrente é a visual (18,6% destes). São muitas pessoas, ainda invisibilizadas pela condição. A barreirense Louise Suelen é uma mulher de 24 anos que convive com a deficiência visual desde o nascimento. Ela se mostra forte, não por morar sozinha, fazer faculdade e realizar muito bem as atividades cotidianas, mas por lutar por informação e educação para que as pessoas com deficiência sejam respeitadas.

Com humor, Louise fala de questões sérias nos seus stand-ups pelos barzinhos, em Ilhéus, onde estuda, produz vídeos para o YouTube e agora tem um site, o deficiencia.com, com alguns colaboradores. Técnica em informática pelo Instituto Federal da Bahia (Ifba), e graduanda em ciência da computação na Universidade Estadual de Santa Cruz, Louise é apaixonada por tecnologia e audiovisual.

Quais trabalhos você desenvolve hoje?

No momento, o que eu mais faço é cuidar do meu site para disponibilizar informações direcionadas à deficiência, só que com uma proposta voltada para pessoa com deficiência como autor. Ele é todo desenvolvido e gerido por pessoas com deficiência. Eu estou na equipe de desenvolvimento e edição de conteúdo, mas tem outros colaboradores, que são na maioria pessoas com deficiência. Têm algumas sem deficiência, nada contra, até tenho amigos que são (risos), mas são minoria. Tentamos levar essa temática de uma forma transversal, porque geralmente quando as pessoas falam de deficiência, já reparou que é sempre numa lógica isolada, como se fosse uma coisa dentro de uma bolha, não interage com mais nada? Então, a gente tenta levar de uma forma transversal e com humor, porque eu já tentei ser uma pessoa séria, mas não funcionou. Tentamos descontrair um pouquinho e oferecer isso no digital, porque lá ainda é muito tímida a iniciativa PCD. Tem artigos, podcast, o projeto está no início ainda, mas está bem bonitinho.

Você tem uma relação muito forte com os estudos desde pequena, não é?

Eu tenho, porque, primeiro, na minha família, minha mãe era professora da rede básica municipal e duas das minhas tias também são professoras. A minha avó trabalhou em escola pública, como merendeira. Eu estudei a vida inteira em escola pública sendo pessoa com deficiência. Sempre vi a relação da minha mãe com os alunos e dos meus professores comigo e quando eu entrei no Ifba os professores fizeram um investimento acima daquilo que era exigido, além da sala de aula, para outras coisas que hoje eu uso para a vida. E eu acho que isso é o que faz com que a gente consiga ser atuante de fato, porque a educação lhe ensina a se defender de uma forma politizada e que você tenha ciência das coisas. Quando você não tem educação, as pessoas lhe tomam como refém. A educação é a coisa que eu mais valorizo, definitivamente.

Na sua opinião, o que falta na sociedade para o mundo ser um lugar melhor, principalmente para pessoas com deficiência?

Eu acho que está faltando tirar o combate ao capacitismo da teoria e trazer para a prática, porque todo mundo fala muito em combater o preconceito com pessoas com deficiência, mas elas ainda se chocam quando a pessoa com deficiência é, de fato, atuante. Cansei de chegar em palestra de educação inclusiva em que as pessoas se surpreendiam por eu ser a palestrante, por estar ministrando, por ser algo desenvolvido por alguém com deficiência. Então, é fácil ser aluno com deficiência, mas quando é o professor com deficiência as coisas mudam de figura. E falta também humanização, porque deficiência toma um protagonismo, a pessoa fica em segundo plano, as pessoas dizem coisas que para pessoa sem deficiência elas não diriam, acham que podem invadir seu espaço, seu corpo, sua vida, fazem perguntas impertinentes, tratam como se você não fosse contribuinte, mas na verdade somos contribuintes, a gente paga impostos.

Estamos caminhando para um mundo com mais igualdade e menos preconceito. O combate a diversas formas de discriminação, como machismo, racismo e homofobia avança, mas na minha vivência, ainda ouço falar pouco sobre o preconceito contra pessoas com deficiência. Por que isso ocorre?

Eu acho que tem a ver com o seguinte: outros grupos, por exemplo, as pessoas negras ou da comunidade LGBT, geralmente, falam por si, têm o protagonismo da sua própria militância. Só que existem algumas deficiências, e aí a deficiência visual também entra, que se você não tem contato com um computador, que é o que possibilita escrever e tudo mais, você fica sem comunicação e outras pessoas falam por você. E essas pessoas ficam muito restritas como estrutura. Sabe rampa, pista tátil e braille? E não focam tanto na questão cultural mesmo, de você levar essa condição como algo inerente ao ser humano. Mas eu acho que isso se dá porque a militância não é feita por pessoas com deficiência. É só você observar as grandes organizações para perceber que embora sejam feitas para pessoas com deficiência, não têm pessoas com deficiência em cargos de gestão, em protagonismo, como eu acredito que deveria ser, ter um equilíbrio, meio a meio, não um completo domínio de pessoas sem deficiência falando por nós.

Como é o processo de gravação e edição dos seus vídeos?

Nós, pessoas com deficiência visual, usamos computadores e celulares com um software chamado leitor de tela. Como eu gravo: geralmente uso a câmera do celular que me diz “um rosto centralizado na tela”, aí eu posiciono, coloco o tripé, faço o enquadramento com a bengala, como um amigo me ensinou e, assim, consigo gravar. Não consigo sincronizar, então, gravo o áudio com um microfone de lapela ou com um fone mesmo e edito com o áudio como o guia, a chamada edição linear. Primeiro, eu faço os cortes com base no meu áudio e quando está tudo pronto vou para a parte de vídeo. E eu deixo as coisas pré-prontas só para inserir as trilhas e insiro com o leitor de telas. As transições eu faço em um editor equivalente ao PowerPoint mesmo e só colo por cima, é bem artesanal, na verdade. E procuro não usar tanto efeito visual, porque eu não estou vendo, tenho medo de não dar certo, então, faço o mais simples possível.

Quais os maiores desafios?

Para mim, a pior parte é gravar, porque depois que o material está pronto, se ele for bem gravado, não tem tanta coisa para fazer na edição. Ela depende mais que o programa seja acessível para o meu programa de voz do que necessariamente do olho. Para gravar, você tem que focar, enquadrar e eu não tenho garantia que estou fazendo certo, porque eu não estou vendo. Então, para mim, a pior parte é a gravação.

O que lhe atrai no audiovisual?

O que me encanta no vídeo é que a mensagem chega muito mais rápida e efetiva do que através do texto. Eu consigo conversar, por exemplo, com a pessoa que é analfabeta, ela vai me ouvir e me entender de forma muito mais direta, sem interlocutores, e eu gosto muito disso.

Sempre teve acesso a esses instrumentos, como computadores?

Tive acesso a partir dos 12 anos, porque até então eu era uma pessoa totalmente oralizada. Aí ganhei um computador de uma professora de atendimento educacional especializado, ele já veio com o software que eu precisava. Ela também era deficiente visual, por isso que eu falo da representatividade. Veio uma biblioteca gigante nele e comecei a me interessar por computador nessa época. A partir desse computador, eu decidi fazer informática.

Você faz stand-ups?

Eu faço, porque acho engraçado as coisas que as pessoas me perguntam, como elas acham que eu sou um ser humano super dotado ou então muito sofrido. Tem gente que fala “não desista, você conseguirá a cura”, mas eu nem estou procurando (risos). E acho que é uma forma de educar as pessoas sem dar sermão, porque eu nunca gostei de palestras super demoradas, nunca tive muita paciência. Percebi que nas palestras que eu dava na escola acabava indo para esse lado do humor, e tenho um amigo que falou “olha, você tem jeito para humor” e organizou um stand up num barzinho que a gente frequentava e foi legal. Eu gostei mesmo e vi que funcionava. As pessoas me faziam perguntas, eu também não tenho problema com perguntas, então comecei a fazer antes da pandemia um pouco.

Você acredita que seu trabalho inspira pessoas ou não é esse o seu objetivo?

Eu nunca parei para pensar sobre isso. Tento conversar muito e nem é no sentido de inspirar, mas porque funcionou para mim conhecer pessoas com deficiência. Eu conheci um programador cego e eu acreditei que também poderia fazer por ter conhecido ele, então, é mais no sentido de as pessoas saberem que existe. Eu nem paro para pensar nessa parte da inspiração, não tenho essa pretensão. É só para dizer que está tudo bem, no sentido de naturalizar a condição. Eu não gosto desse olhar que existe da deficiência que ou você é um grande herói, que apesar da deficiência conseguiu, porque não acho que é apesar, eu acho que é graças. Ou então, você é a pobre vítima que precisa desesperadamente de uma cura e você só vai ser feliz no dia da cura, porque a cura pode não vir, eu posso morrer sem ela, e aí? Então, é mais nesse sentido de naturalizar como característica. É igual você ser negro. Se você é um deficiente negro você está duplamente lascado, mas são nossas características. Ou você ignora, finge demência e supera ou você vai procurar corrigir a falha, e não é bem isso.

Entrevista do Jornal A Tarde

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