CASO ÁGATHA: ATÉ QUANDO?

CASO ÁGATHA: ATÉ QUANDO? 1

No último sábado, dia 21, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, Ágatha Félix, de 8 anos, foi atingida nas costas por um tiro de fuzil. Ela estava dentro de uma Kombi quando foi baleada. De quem é a culpa? Segundo a polícia, na hora do disparo, as equipes policiais da UPP Fazendinha foram atacadas de várias localidades simultaneamente.

Segundo o depoimento do motorista da Kombi, relatado na Delegacia de Homicídios do Rio e testemunhado pelo advogado da Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ Rodrigo Mondego, dois homens sem camisa passavam numa moto quando o condutor da Kombi viu um dos policiais presentes atirando, mas pelo fato de não haver conflito, o motorista pensou que os tiros haviam sido disparados para o alto, somente quando ouviu a mãe de Ágatha gritar ele correu para ajudar a menina. Os policiais ficaram sem reação e não prestaram socorro, afirmou Mondego. A kombi saiu em disparada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima. Foi lá que outros dois policiais, que nada tinham a ver com o caso, levaram Ágatha em uma viatura para o Hospital Getúlio Vargas, onde ela veio a óbito na madrugada de sábado 21.

No depoimento à Polícia, o motorista da Kombi disse que não viu armas nas mãos dos homens que passavam numa moto. Caso fossem mortos pelos disparos da polícia esse ato se tornaria uma execução, pois não houve conflito, afirmou no depoimento. A versão oficial da polícia é a de que Ágatha foi morta numa troca de tiros entre policiais e criminosos. Quem disse a verdade?

No dia 7 de setembro, um garoto de 12 anos morreu ao ser baleado por um disparo no Complexo do Chapadão, também na Zona Norte do Rio de Janeiro. Kauê Ribeiro dos Santos foi atingido na cabeça, na Estrada do Camboatá. O mesmo conflito de informações, ocorrido no caso Ágatha, acontece nesse episódio. Na ocasião a polícia disse que Kauê era um suspeito que teria entrado em confronto com militares. A família contesta essa versão. Quem está com a razão?

Em maio deste ano, Kauan Rozário, de 11 anos, foi atingido por um tiro durante confronto entre policiais militares e traficantes em Bangu, na Zona Oeste do Rio. O menino ficou internado durante uma semana no Hospital Albert Schwitzer, em Realengo, mas não resistiu. O desejo dos parentes de Kauan era doar os órgãos do menino, mas isso não foi possível devido à gravidade dos ferimentos.

No dia 16 de março, Kauan Peixoto, de 12 anos, morreu após ser baleado durante uma operação policial na comunidade da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Kauan tinha saído para comprar um lanche, relatam os parentes.

Jenifer Cilene Gomes, de 11 anos, foi atingida numa troca de tiros no bairro da Triagem, Zona Norte do Rio, chegou a ser socorrida e levada às pressas para o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, mas morreu antes de dar entrada na unidade.

A morte da menina Ágatha Vitória gerou grande repercussão no meio político e pode até afetar a tramitação do pacote anticrime do ministro Sérgio Moro – um dos pontos controversos do projeto prevê atenuante para policial que matar, a depender do contexto da ação. Políticos de esquerda relacionam a morte de Ágatha ao discurso da direita, representado pelo governador do Rio, Wilson Witzel (PSC) e pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL). Os políticos de direita lembram que há também um contingente grande de policiais mortos em confronto contra bandidos, inclusive dois foram mortos na mesma semana em que a menina Ágatha faleceu.

DE QUEM É A CULPA, AFINAL?

A polícia deve ser a guardiã dos direitos e liberdades fundamentais. O direito constitucional à vida deve ser resguardado. Não cabe aos agentes de Segurança Pública o mesmo comportamento dos criminosos, que sobrevivem da ilegalidade. Em confronto cabe a aplicação da força? Certamente. Ela integra o monopólio das prerrogativas estatais. Caso haja risco à vida dos policiais ou à de terceiros, a alternativa de matar se torna regra. Mas adentrar o território do inimigo atirando a esmo, não significa que somente os inimigos serão atingidos. Há cidadãos de bem, pais e mães de família, crianças e jovens com um futuro inteiro pela frente que habitam o mesmo campo dos marginais, muitas vezes protegidos pelos moradores das comunidades carentes. A culpa é exclusiva da polícia? Não. A culpa é exclusiva dos criminosos? Também não. A culpa é da política de segurança do governo Witzel? O objetivo dela não é abater cidadãos inocentes. Essa política necessita ser repensada, assim como a visão de quem busca soluções simplistas para o problema da violência e do crime organizado no Rio de Janeiro e no Brasil, um teorema dos mais complexos.

2 respostas a CASO ÁGATHA: ATÉ QUANDO?

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