Nossa Senhora da Boa Morte

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A pequena cidade de Cachoeira, município do Recôncavo baiano, se agiganta em agosto ao se tornar palco de uma das celebrações mais importantes do estado: a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Considerada Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2010, a manifestação cultural e religiosa existe há mais de 200 anos e rememora a luta do povo negro diante a escravidão. Milhares de moradores e turistas participam dos festejos, que nesse ano foram realizados entre os dias 13 e 17 de agosto.

A celebração é coordenada pela Irmandade da Boa Morte, confraria só de mulheres negras criada em 1820 na igreja da Barroquinha, em Salvador, e transferida nos anos seguintes para Cachoeira. O objetivo das integrantes era a compra da liberdade de pessoas escravizadas e organização de funerais dignos, além de ajudarem na fuga deles para Quilombos da região.

Joselita Sampaio, uma das irmãs da confraria, salienta que “a Irmandade da Boa Morte é resistência para o povo negro porque ela vem dos nossos antepassados, dos nossos ancestrais. É uma Irmandade sofrida, que partiu dos escravos. Perante ao povo nós temos uma grande resistência, uma grande firmeza.”

Elementos da cultura afro e da tradição católica se misturam na programação da festa, que tem início na noite do dia 13, com a saída do corpo de Nossa Senhora da Boa Morte em procissão pelas ruas de Cachoeira. A partir do dia 15, o samba de roda e o oferecimento de cozido e caruru ganham destaque nos festejos.

Tradicionalmente, todas os dias da programação são repletos de moradores e turistas, e a taxa de acomodação dos hotéis da cidade chega a ser 100%. Nesse ano, a expectativa não é diferente. Victor dos Santos, funcionário de um dos hotéis centrais de Cachoeira, ressalta que a festa tem uma grande importância para movimentar a economia local. “Pra gente que vive praticamente do turismo é muito importante, todos hotéis da cidade ficam cheios. O pessoal vem muito atrás das nossas comidas típicas, como maniçoba, caruru, e isso ajuda muito na economia”, diz.

Além do papel religioso e cultural, a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte resgata a importância da organização das mulheres e da luta do povo negro, elementos fundamentais desde a resistência à escravidão até à luta antirracista nos dias atuais. Irmã Joselita destaca o exemplo da Irmandade como referência para as mulheres negras. “O que desejamos é que cada dia mais elas lutem, enfrentem, tenham garra, sejam mulheres corajosas como nós somos. Porque até hoje lutamos pela nossa liberdade, pela nossa cor, pela nossa raça que é a cor preta, brasileira, que veio dos nossos escravos. E temos todos que nos conscientizar que é nossa cor que nos traz a paz, a saúde e os caminhos abertos em harmonia”, finaliza.

Edição: Elen Carvalho via 

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