Nota do Instituto Nossa Ilhéus sobre PL que propõe mudança de nome da Praça Castro Alves

Nota do Instituto Nossa Ilhéus sobre PL que propõe mudança de nome da Praça Castro Alves 1

Foto: R2CPress.

O Instituto Nossa Ilhéus vem a público trazer o seu entendimento sobre o Projeto de Lei 044/2019, apresentado pelo vereador Nerival Reis no dia 04 de junho de 2019, que vem mobilizando parte da população sobre esta proposta que visa alterar o nome da Praça Castro Alves para Praça da Irene, sob a justificativa da recorrente referência à localidade pelo nome da famosa baiana de acarajé.

Como bem lembrou o nosso associado fundador, o professor Ramayana Vargens, nada une mais os universos das duas figuras em um mesmo lugar do que a África. Castro Alves, na defesa das pessoas escravizadas no século XIX, com as palavras e versos eternamente registrados nos corações brasileiros; Irene, com as mãos mágicas que fizeram do seu acarajé um famoso quitute, merecendo a lembrança de sua memória até os dias de hoje. 

Irene tinha seu tabuleiro, inicialmente, à sombra de uma amendoeira junto ao muro do então Colégio General Osório – hoje Biblioteca Municipal Adonias Filho – , o que fazia com que ambos coexistissem harmonicamente, fortalecendo o simbolismo do que representa a África para Ilhéus – cidade cenário da resistência escrava no Engenho de Santana em 1789, da união de diferentes povos que nos faz ter “o quibe no tabuleiro da baiana” (SANTOS, Maria Luiza Silva), e outro tantos episódios de nossa História.

Castro Alves e Irene são as vozes da África de ontem e dos dias atuais em um logradouro que tem uma dupla vocação: a gastronômica e a patrimonial (localizando a Biblioteca Municipal – um dos ícones de uma cidade divulgada pela LITERATURA de Jorge Amado – além dos casarões históricos nos arredores e do próprio busto do poeta no centro da praça, que recebe flores aos 14 de março, Dia Nacional da Poesia, data estabelecida em virtude de seu aniversário).

Em um momento em que a Cultura do nosso país precisa ser fortalecida a partir das políticas públicas, e que seus símbolos seculares lutam para continuar permeando o imaginário e a memória com a mesma força que empreenderam suas conquistas outrora, não entendemos que se deve abrir mão da homenagem que fazemos a Castro Alves desde a década de 30, ainda que a homenagem a Irene seja bastante justa. Por que apagar uma história para fazer outra brilhar, se podemos evitar a “sobreposição de importâncias”?

E o que aconteceria com o busto? Seria insensivelmente retirado do local, tal como acontece ao redor do mundo com as estátuas dos hoje reconhecidos vilões da História? Seria esse mesmo o destino desta imagem que nos remete ao poeta dos escravos, eterno indignado com os graves problemas sociais de seu tempo, o último grande poeta da Terceira Geração Romântica no Brasil?

Como o Instituto atua de forma propositiva, a sugestão é que, sendo a praça um lugar de livre fruição do povo, é chegado o momento de legitimar a coexistência dos dois homenageados, nomeando como “Espaço gastronômico da Irene”, o conjunto de quiosques localizado na Praça Castro Alves. 

Portanto, ao invés do apagamento, das preferências e do prejuízo, podemos escolher a CONVIVÊNCIA com os símbolos de ontem e de hoje, tendo no mesmo local um homem e uma mulher que nos trazem o poema pela liberdade e o sabor da África. Nada mais oportuno para um bom trabalho de sensibilização da população para este tema e para o marketing do município, que pode se utilizar da vocação turística e impregnar de MAIS história, sabores e experiências quem visitar esse ponto turístico.

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