Cacau baiano conquista indicação geográfica

Cacau baiano conquista indicação geográfica 1

Foto: Maurício Maron

A produção de cacau ganhou um novo aliado na luta pelo reconhecimento do produto no mercado

nacional e internacional. A conquista recente do registro de Indicação Geográfica (IG), na espécie de Indicação de Procedência (IP) da amêndoa de cacau (Theobroma cacao L), ampliou os horizontes dos produtores que integram a Associação Cacau Sul Bahia (ACSB). Eles enxergam no selo a oportunidade de ampliar o mercado consumidor a partir da legitimidade conferida.
 
O reconhecimento é fruto de um trabalho desenvolvido em conjunto com entidades que integram a Rede de Governança do Cacau e Chocolate na região, em parceria com o Sebrae. A boa notícia foi publicada pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), na edição de abril da Revista de Propriedade Industrial (RPI), nº 2468. A área geográfica beneficiada com o selo abrange um cultivo estimado de 61.460 quilômetros quadrados, em 83 municípios e seis territórios regionais: Baixo Sul, Médio Rio de Contas, Médio Sudoeste da Bahia, Litoral Sul, Costa do Descobrimento e Extremo Sul.


Além de ser um registro, a IG é um movimento que, de acordo com o diretor executivo da Associação, Cristiano San’tana, funciona como impulsionador, a fim de divulgar os produtos de uma determinada região, proteger a herança histórico-cultural, promover a qualidade e garantir a reputação do produto no mercado. “O IG é um processo que vem sendo discutido há mais de dez anos, e se tornou uma ferramenta de agregação de valor, não só para a amêndoa, mas para a região como um todo”, destacou.
 
Para obter o selo de origem e de qualidade da Indicação Geográfica de Procedência (IP), o produtor deve possuir propriedade localizada na região demarcada como da IP, ser associado a uma das associações ou cooperativas filiadas a ACSB e se adequar ao Regulamento de Uso (RU).
 
Este último se baseia nas normas e condições de uso da terra e a produção padronizada, na classificação física e sensorial de amêndoas de qualidade superior e no credenciamento de armazéns e processos de rastreabilidade.

Uma das formas de cultivo do cacau que se enquadra na Indicação Geográfica é conhecida como cacau Cabruca. Segundo Cristiano, o fruto é produzido embaixo de grandes árvores da Mata Atlântica, preservando, assim, espécies raras da fauna e flora, como o mico-leão da cara dourada e o jequitibá, além da água, solo e o ar desta região. “O cacau é a identidade do povo desta região e está nas histórias, na alimentação e no cenário local”.

Na Fazenda Santa Rita, município de Ilhéus, o proprietário Lucas Moreira Arléo representa a terceira geração da sua família que coordena uma área de 160 hectares de plantação de cacau com uma colheita média de 1.600 arrobas por ano. O sistema produtivo é voltado ao cultivo do cacau Cabruca e o resultado tem sido a produção de amêndoas de qualidade, visando atender clientes específicos, produtores de chocolate Ben To Bar (do grão a barra de chocolate).
 
A grande expectativa de Lucas é a adesão ao selo da IG, em fase de avaliação, com o objetivo de agregar, ainda mais, valor ao cacau já produzido na sua fazenda. “Isso vai impulsionar e valorizar o produto. Vai dar segurança para quem compra e vai levar a história da região para o Brasil e o mundo”, declarou o produtor. De acordo com as normas do Conselho Regulador da IG Sul da Bahia, o cacau passa por uma avaliação técnica da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – Ceplac, do Centro de Inovação do Cacau – CIC e pela ACSB.
 
Para o produtor de cacau Osvaldo de Brito, contemplado recentemente com o selo da IG e proprietário da fazenda Taboquinhas, no município de Itacaré, com 78 hectares e a colheita média de 200 arrobas de cacau orgânico por ano, outro atrativo é a sua localização. Situada às margens do Rio de Contas, o lugar atrai turistas interessados em conhecer o processo de produção do “fruto do ouro” – desde a colheita até moagem, passear a cavalo pelas fazendas de cacau e desfrutar das cachoeiras e trilhas.

“Eu vejo o cacau de qualidade, agora com o selo da Indicação Geográfica, como mais um produto para atrair turistas à minha fazenda. Ou seja, espero que as pessoas queiram conhecer o cacau orgânico, com responsabilidade social e ambiental e com o selo de identificação”, declarou Osvaldo, que está investindo na construção de um cocho para fermentação, reformando a barcaça para secagem e cuidando da limpeza do local.
 
Com mais de 200 anos de história e tradição, o cacau produzido no Sul da Bahia tem uma grande participação dos produtores da Agricultura Familiar da região, que aguardaram há muito tempo pela conquista da IG. No Assentamento Buique, localizado no município de Buerarema, as famílias dos agricultores Antônio Mendes, Valter Oliveira e Maria Tourinho vivem da renda gerada com a produção e a comercialização do cacau.
Segundo a presidente da Central de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária do Território Litoral Sul (Centrafesol), filiada à ACSB, Maria Angélica Anunciação, a expectativa dessas famílias é de que, a partir da adesão ao selo, elas consigam ter melhorias no sistema produtivo do cacau, agregando um valor financeiro maior ao produto. Das 29 famílias assentadas no Buique, algumas delas já iniciaram a produção de cacau de qualidade, visando à adesão ao selo.
“A partir da IG, esperamos ter um tratamento diferenciado nos bancos para a aquisição de crédito e entre os compradores de cacau”, declarou Maria Angélica, que é uma das proprietárias de terra no Assentamento Manoel Chinês, em Itabuna, e também estará investindo na produção de qualidade. Segundo ela, a agricultura familiar tem a vantagem da mão de obra que é própria e não tem custos, ao contrário do que acontece com os grandes produtores.

Cacau e chocolate

A busca pela IG do cacau do Sul da Bahia sempre esteve entre as estratégias trabalhadas no projeto Cacau e Chocolate, da Unidade Regional do Sebrae em Ilhéus. De acordo com a gerente regional da instituição, Claudiana Figueiredo, atuante nas discussões, a conquista é mais um marco que exprime a mudança de narrativa da região Sul da Bahia. “Representa um passo importante de um sonho a ser realizado: sermos referência mundial em cacau de altíssima qualidade”, comemorou.
O desenvolvimento e a expansão da IP – Sul da Bahia dentro do território nacional e internacional representa um novo estágio de organização da produção de cacau na região. Nesse sentido, a técnica do Sebrae Ana Carolina Menezes Argolo destaca que a instituição tem o papel fundamental no processo de Indicação Geográfica junto ao INPI, com a realização de consultorias nas áreas de gestão, plano de negócios, planejamento estratégico, formação de preço, produção de embalagens, impressão de material, dentre outros.
 
Para este ano, de acordo com Ana Carolina, está prevista a aplicação de consultorias especializadas com o subsídio de 70% para ajudar o produtor a se adequar às normas da IG. “O Sebrae vai desenvolver um trabalho junto à IG de precificar esse selo e entender quanto ele vai custar para a Associação. Vamos verificar formas de monetizar valores para que a gente consiga iniciar a operação e que o produtor tenha o suporte”.

Já a ACSB promoverá ações de marketing para motivar os associados a obter o selo da IG. Entre elas estão: dar visibilidade; difundir treinamentos técnicos no campo, visando atrair os benefícios agregadores da qualidade; e atrair o mercado nacional e internacional, consolidando o selo da IP Cacau Sul da Bahia como uma marca de confiança.

Associação Cacau Sul da Bahia (ACSB)

Ao todo, 14 cooperativas e associações representativas, envolvendo aproximadamente 2,5 mil produtores de cacau, são ligadas à ACSB. São elas: Associação de Gestores de Ibirataia, Ipiaú e Região do Médio Rio das Contas (AGIIR); APC Cooperativa Agroindustrial de Cacau e Chocolate (APC Cooperativa); Associação de Pequenos Empreendedores e Restauradores Agrícola da Microrregião Cacaueira da Bahia (Aperamcaueba); Central de Cooperativas de Agricultores e Agricultoras Familiares e Economia Solidaria dos Territórios de Identidade da Região Cacaueira da Bahia (Centrafesol); Cooperativa de Desenvolvimento Sustentável da Agricultura Familiar do Sul da Bahia (Coofasulba); Cooperativa Agrícola de Gandu LTDA (Coopag); Cooperativa de Pequenos Produtores de Cacau, Mandioca e Banana do Centro Sul da Região Cacaueira LTDA (Coopercentrosul); Cooperativa da Agricultura Familiar e Economia Solidária da Bacia do Rio Salgado e Adjacências (Coopfesba); Instituto Arapyaú; Instituto Cabruca; Instituto Viver da Mata; Instituto Pensar Cacau (IPC); Rede Agroecologia Povos da Mata Atlântica, e Cooperativa de Produtores Agropecuários Construindo o Sul (Cooprasul).

Informações do G1

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