A REVOLTA DO CADEIRANTE MÁRIO MORENO CONTRA O TRANSPORTE COLETIVO DE ILHÉUS

Foto: Blog do Gusmão

Nascido em Camamu, José Mário Moreno é um morador antigo de Ilhéus. Há 25 anos, quando deixou a ativa da Marinha do Brasil, passou a complementar a renda da família cortando cabelos. Montou a barbearia na rua onde mora, perto da praça São João Batista, no bairro Pontal. O primeiro nome do estabelecimento fazia referência ao seu apelido (Tatu): “Tatu’s Cabeleireiro”. A alcunha, por sua vez, remete aos tempos de infância. “Eu era gordinho como um tatu redondo”.

Mário aposentou a tesoura em 2014. Diabético, teve grande parte da perna esquerda amputada naquele ano, após a infecção de um pequeno ferimento que provocou ao cortar as unhas. “O dedo apodreceu e a perna foi cortada de pedaço em pedaço”, conta. Os seus filhos herdaram a profissão do pai e mantêm o negócio em outro endereço da mesma rua.

O Blog do Gusmão chegou a Moreno por meio de um dos seus filhos, Fabiano, que nos falou sobre o desejo do pai de manifestar o que pensa a respeito do sistema de transporte coletivo da cidade. Encontramos a família de cabeleireiros no último dia 11, em frente ao salão de beleza que hoje leva o nome de Patrícia, também filha do militar da reserva.

Naquela segunda-feira, conhecemos a revolta de Mário. “Aqui em Ilhéus, nós, cadeirantes, somos tratados como se fôssemos cachorros, porque não tem lei. A lei é essa: quem manda são os empresários. Agora eu preciso de uma pessoa competente que veja isso, para a gente poder ir para um lugar e para outro, porque os motoristas [dos ônibus] não pegam os cadeirantes”, declarou o homem revoltado.

Ele contou que, depois de sair da ativa, sempre fez seus “biscates” – o que incluía o ofício de cabeleireiro. “Mas, agora não posso fazer nada na vida. Estou com trauma até de sair do Pontal para o Centro, porque não tem como pegar ônibus com minha cadeira [de rodas]: eu sou humilhado! ‘Eu sou não’, a maioria dos cadeirantes é, mas, muita gente tem medo de falar. Eu não, porque não devo nada. Eu estou com 71 anos e nunca fui preso, graças a Deus. Minha ficha é limpa”.

Mário fica especialmente revoltado quando os motoristas de ônibus não param ao seu sinal. Ele narrou um episódio que vivenciou no bairro Cidade Nova. “Uma vez, eu estava naquele ponto perto da [antiga] Maternidade Santa Isabel e dei a mão. Passaram cinco ônibus e não pararam”. Segundo Moreno, um homem notou o seu sofrimento e o socorreu. “Tio, você vai pra onde?”, perguntou o rapaz que, conforme o narrador, tinha a pele “escura”. “Vou pro Pontal”, respondeu o militar da reserva. “Então o senhor vai pegar o primeiro [ônibus] que passar”, garantiu o jovem.

O rapaz deu a mão para um ônibus que seguiria para o Nossa Senhora das Vitórias e pediu para o motorista abaixar o elevador. No entanto, ainda de acordo com Tatu, o rodoviário respondeu que o aparelho estava com defeito. Ao ouvir a resposta, o moço retrucou: “Então vamos consertar!”. O elevador funcionou na primeira tentativa, segundo Moreno. Depois que embarcou, o seu anjo da guarda negro se despediu e solicitou que o condutor o deixasse no Pontal, no ponto próximo à loja do Boticário. Mário afirma que o motorista não o deixou no lugar correto e só parou o veículo depois que outros passageiros começaram a gritar em tom de ameaça.

Perguntamos a Moreno o que falta para que o sistema de transporte coletivo de Ilhéus trate os cadeirantes de forma digna. Ele respondeu que a qualidade do serviço só vai melhorar com “uma fiscalização mais severa” por parte do governo municipal. Na sua opinião, isso diminuiria o tempo de espera nos pontos de ônibus e a ocorrência de episódios como o narrado acima.

O militar da reserva fez parte do tratamento da perna nos Estados Unidos, entre 2016 e 2017. Trouxe boas recordações do modo como foi cuidado pelos norte-americanos. “Lá, o cadeirante é tão respeitado quanto o presidente, ou mais alguma coisinha. Quando a gente está no ponto de ônibus, não precisa nem dar a mão. O motorista para, desce, aperta a mão da pessoa, pergunta para onde ela vai e arreia a rampa. Quando chega no ponto, ele abraça a gente e vai, para o ônibus poder seguir. Aqui não. Aqui vai é no chute”.

As comparações que Tatu faz entre a realidade brasileira e a norte-americana parecem aumentar o seu descontentamento. É como se o contraste avolumasse a revolta, por mostrar que a qualidade de vida dos cadeirantes pode melhorar significativamente, desde que a nossa sociedade se esforce por isso. Outra comparação reforçou essa inferência sobre o sentimento do homem revoltado. Na década de sessenta, servindo como marinheiro num navio que viajava pela Europa, Mário caiu do alto de uma escada e sofreu fraturas no cóccix. Levado para um hospital na Alemanha, passou por cirurgias complexas que emendaram os seus ossos partidos com pedaços de titânio. Segundo ele, o “atendimento foi nota mil”. “Se fosse no Brasil, eu não teria socorro nenhum. O socorro seria me jogar dentro d’água para os tubarões me comer”, exagerou. “A gente no Brasil precisa tomar isso como espelho, para tratar as pessoas bem”.

Mário tem uma cadeira de rodas motorizada, no entanto, falta-lhe autonomia para se locomover até mesmo nas ruas do bairro. As calçadas irregulares praticamente inviabilizam a sua locomoção. Cada passeio irregular é um guarda mal-humorado pronto para interditar o seu caminho. É como se a cidade dissesse que o espaço público não tem lugar para ele. Mas Moreno acredita em Deus e, na revelação dessa fé, a revolta do seu discurso dá vez à esperança, a ponto de sugerir um caminho para o destino das pessoas com deficiência motora que vivem em Ilhéus. “A gente tem que dar mais valor aos cadeirantes, porque nós não estamos deficientes porque queremos, é porque Deus quer. Se Deus quer, a cidade tem que ter um órgão competente para nos ajudar, e não maltratar o ser humano”.

O outro lado

Na tarde desta sexta-feira (5), o Blog do Gusmão conversou por telefone com o secretário de Infraestrutura, Transporte e Trânsito de Ilhéus, Hermano Fanhing. A sua pasta é responsável pela fiscalização da qualidade do sistema de transporte coletivo operado pelas concessionárias Viametro e São Miguel. Segundo ele, o governo pretende estimular a denúncia dos problemas que os usuários do serviço enfrentam. A ideia é fazer com que a população ajude a prefeitura a fiscalizar as empresas, denunciando eventuais falhas, como as apontadas por Mário Moreno. Atualmente, as denúncias podem ser feitas no site da prefeitura, no entanto, o secretário admite que esse canal não é acessível para boa parte dos moradores da cidade. O objetivo do governo é ampliar os canais de comunicação com os usuários do serviço.

Falamos a Hermano sobre o episódio da Cidade Nova. Perguntamos se o comportamento atribuído por Mário ao motorista daquele ônibus preocupa o governo, já que outras pessoas fazem reclamações parecidas. Ele explicou que o papel da secretaria é fiscalizar a qualidade da relação de consumo. Isso passa pelo modo como os condutores se comportam e lidam com os passageiros, já que o tipo de situação narrada por Tatu pode gerar multas contra as empresas. No entanto, conforme sua explicação, o município não tem poder de interferência na relação entre as concessionárias e seus funcionários nem treinamento que esses profissionais recebem.

Em relação aos elevadores dos ônibus, Fanhing lembrou que, em 2017, o governo fez uma vistoria em todos os veículos da frota ilheense. O procedimento vai ocorrer novamente neste ano.

Também levamos ao secretário a reclamação de Tatu sobre as calçadas da cidade. Hermano informou que o município tenta captar recursos federais para melhorar a acessibilidade das ruas de Ilhéus, por meio de um projeto enviado ao Ministério das Cidades. Segundo ele, o sucesso dessa investida depende da avaliação do Ministério a respeito da capacidade de endividamento da prefeitura.

O Blog do Gusmão não conseguiu manter contato com a Associação das Empresas de Transporte de Ilhéus (ATRANSPI). As três chamadas telefônicas feitas por volta das 17h30min de hoje não foram atendidas. Este espaço está aberto caso a entidade queira se manifestar sobre as críticas de Mário Moreno.

Em outra oportunidade, a direção da Viametro explicou ao blog que os elevadores dos seus ônibus são vistoriados diariamente, para que nenhum veículo deixe a garagem sem condições de uso do equipamento. A situação sobre a qual a empresa se manifestou também envolveu um usuário de cadeira de rodas, cuja família reclamava do tratamento que ele recebia dos motoristas. À época, a concessionária recomendou que os próprios cadeirantes ou os seus parentes anotem os números dos ônibus com problemas para o encaminhamento das denúncias à empresa.

Informações do Blog do Gusmão

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