EDITORIAL: Ilhéus, verão e vários problemas

Foto: José Nazal

Desde quando o “coroné” era vivo Ilhéus tem problemas, principalmente na chamada estação dos turistas.

Ao invés de casacos, cachecóis e guardas-chuva, biquinis, shorts e regatas ditam a moda nas ruas, que tem temperaturas médias de 30ºC durante toda a semana. Foi nesses ares, das águas e de todos os cantos de Ilhéus que brotou a fonte de inspiração para os romances de Jorge Amado.

Então, siga os passos de Jorge Amado. Sente-se ao lado dele no Bar Vesúvio de propriedade de “Nacib” e sinta-se parte da história. Ali os coronéis do cacau costumavam se reunir para esperar por suas mulheres que rezavam na missa. É bem verdade que muitas vezes eles davam uma escapadinha para se divertir no Bataclan com as meninas de “Maria Machadão”. A casa noturna e bordel que também funcionava como cassino tinha uma porta de conexão direta com o bar. Assim sendo, no mesmo quarteirão, ao redor da Praça Dom Eduardo havia os prazeres da boa mesa (Bar Vesúvio), do espírito (Catedral de São Sebastião) e da carne (Cabaré Bataclan).

Só que tudo mudou, e continua mudando!

Todos os dias, pela manhã, lá está ela (Ilhéus), sorriso estampado no rosto (com sua natureza), uma serenidade que me parece rara por esses tempos, colhendo os frutos podres da nossa existência: o lixo que produzimos sem cessar, desdenhando do mundo.

Chamo-o, sem que ela saiba, de Sísifo, pela repetição cotidiana do seu trabalho (Natureza), que há até de parecer inútil, e bem sabemos que não é. Seu cumprimento é sempre cheio de uma alegria que me parece impossível ignorar. Trocamos algumas palavras, falamos ligeiramente, e eu sigo em frente, sem deixar de observar o cuidado com que ele busca folhas e outros restos da natureza, inclusive os que espalhamos. Seria um homem zeloso e detalhista, imagino, em qualquer profissão.

Tito Lucrécio, o imortal poeta romano, acreditava que os deuses existiam, mas só cuidavam do mundinho deles, bem longe do nosso, pelo qual não nutria apreço ou desapreço: os humanos que cuidassem dos seus feitos e desfeitos. E não jogassem sobre os ombros alheios a responsabilidade pela busca, quase sempre frustrante, da felicidade.

Acho, entretanto, que a mitologia clássica, incluindo também a de origem africana, eu sugiro a leitura do ótimo livro de Reginaldo Prandi, A Mitologia dos Orixás, tem muito a nos ensinar sobre o que somos: humanos, perdidamente humanos. Ela nos propõe metáforas precisas dos nossos defeitos e virtudes.

Mas vamos lá, particularmente, tenho simpatia por Ilhéus, que pra mim tem várias personalidades que os gregos, romanos, celtas, entre outros, nos legaram com tanto significado. Ilhéus é sofredora e não tem sorte, condenada a cumprir sentença eterna, é verdade, mas acho que eles guardam algo da esperança que nos move na tragédia do cotidiano. Insistimos e persistimos, ainda que seja possível prever a inutilidade de tantos dos nossos atos, repetidos à exaustão.

Insistimos e persistimos, porque amamos! 

Ilhéus vive no enredo que a existência nos reserva a quase todos. Pelo menos aos homens comuns, esta sendo a sentença mais democrática da vida. Enquanto força houver, o pior dos mundos será a desistência.

Recomeçar “como as canções e epidemias”, aliás, faz parte do território do imponderável e inevitável destino humano, tão diverso e contraditório quanto a nossa estimada cidade. 

Recomeçamos uma nova formatação de saúde, que já se apresenta não eficaz. Hospital Pediátrico, sem pediatra, mesma coisa de padaria sem padeiro. 

Recomeçamos um verão, sabendo que a mais bela das belas atraem turistas de diversos estados e até de países, e não nos organizamos nem no mar e muito menos nas pistas. 

Tudo é cíclico, tudo é devir, e o grande Heráclito determinou isso, tudo é alternância, mudança, mas nossos governantes ficam olhando as estrelas.

Pobre Ilhéus e Rica Ilhéus, o sol inclemente para que a paisagem nos seja mais leve, desfeita dos nossos excessos, pode-se dizer, sem medo de errar, que o seu sorriso constrange a tristeza e o mau humor daqueles que o enxergam.

Referências

PRANDI, R. 1991 Os candomblés de São Paulo, São Paulo, Hucitec, 1991.

REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antigüidade ,São Paulo: Ed. Paulus, 1990. [v.1]

MOTA, Ricardo. Mito de Sísifo, Maceió – TNH. 2017.

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